Conto: Um demônio entediado

A corte das trevas estava reunida na sala do trono, diante do Poderoso, à espera de seu veredito. Muitos membros daquela estranha aristocracia já tinham sido exterminados ao longo daquele dia. O chão da cidade maldita estava coberto com o sangue, ossos e vísceras dos serviçais e de muitos ex-conselheiros, todos vítimas do Poderoso. Contudo, sua sede assassina ainda estava longe de ser aplacada. A fila de futuros ex-conselheiros que se estendia rumo à morte certa era interminável, assim como intermináveis eram seus projetos e ideias para trazer algum divertimento à aborrecida existência do Poderoso.

─ O próximo! ─ Bradou o demônio-arauto, com uma voz profunda como o soar de um gigantesco órgão de catedral.

O candidato postou-se diante do Poderoso e da corte e começou sua apresentação, cuidadosamente ensaiada durante séculos, para o deleite do Poderoso e de seus favoritos (se é que alguém poderia aspirar a esse status. Até aquele momento, apenas o arauto estava seguro. Mas isso podia mudar a qualquer momento).

─Ó poderoso senhor da escuridão, artífice de todo mal e perversidade, criador do caos e destruidor de mundos, fonte de todos os horrores ocultos nos abismos entre as estrelas, contágio mortal a todas as formas de vida, fim da luz e de todas esperanças, mentor das grandes carnificinas, força inescapável que alimenta a morte…

O conselheiro não conseguiu terminar a colossal lista de títulos do Poderoso. Foi fulminado por um raio lançado dos olhos do poderoso, cujo tédio, à essa altura, já lhe asfixiava a razão.

─Esse demorou demais─ Disse o Poderoso, com um resmungo profundo como o som da terra que treme durante um sismo.

─Próximo! ─Berrou o Arauto.

O candidato seguinte entrou. Postou-se calmamente diante do trono, fez uma mesura em respeito ao soberano e…foi esmagado por uma rocha do tamanho de um tiranossauro rex adulto, lançada sobre ele pelas mãos do Poderoso.

O arauto apenas olhou para O poderoso, sem saber o que dizer.

─Não gostei do modo como ele entrou. Confiante demais─ Resmungou o poderoso.
─Próximo!

O conselheiro seguinte entrou com humildade. Olhou toda a corte nos olhos multifacetados, vermelhos, amarelos, com íris reptiliana ou simplesmente de um branco cego e indiferente. Mas não encarou o poderoso.

─Qual é o vosso prazer, Ó poderoso? ─Disse ele, pulando o protocolo que exigia a apresentação de todos os títulos do Poderoso.

O poderoso pensou naquelas palavras, em silêncio, enigmático.
A corte segurou a respiração, por um momento que pareceu durar 10.000 anos. Conhecendo a história deles, provavelmente durou esse tempo mesmo.

─Horror, caos, loucura, corrupção, morte, dor e sofrimento. Mas tenho outros─ Respondeu o poderoso, milagrosamente sem reduzir o candidato a uma poça de carne, sangue e farelo de ossos.

─E de onde surgem tais prazeres, ó poderoso?

O soberano estava deliciado com esse candidato. Sua abordagem era realmente original. Bastante ousada, suicida, até. Mas decididamente original. Talvez sua busca tivesse finalmente terminado.

─Do desespero e da agonia de formas de vida. Quaisquer formas de vida─ Respondeu o soberano.

─Pois bem, ó Poderoso. É do conhecimento de todos que sua malevolência não mais extrai prazer das formas de vida que povoam esse mundo. Estou certo?

─Sim, e tal fato me aborrece mortalmente. E quando me aborreço mortalmente, muitos precisam morrer. Já estou ficando sem serviçais o bastante para manter a cidade maldita… ─Respondeu o poderoso.

─Compreendo. As grandes feras que vossa malevolência criou tinham um grande potencial…

─Como assim “tinham”? ─Perguntou o poderoso, sentindo-se menosprezado em suas artes arcanas de suprema perversidade.

─Quando vossa malignidade escolheu esse planeta para ocupar, ele nada mais era do que uma bola de lama. Havia elementos leves, energia do magma, alguma água, oxigênio, nitrogênio, metano, e rochas. Vossa perversidade fez um belo trabalho promovendo descargas elétricas capazes de gerar aminoácidos, um caldo primordial, as primeiras formas de vida unicelular, os grandes predadores marinhos, a colonização do ambiente terrestre… ─O candidato esperou.

─Sim! Sim! prossiga! ─Disse o poderoso, por um instante novamente apaixonado por sua própria obra.

─Então começou a investir seus esforços no desenvolvimento de feras cada vez maiores e mais violentas, como essas─ Disse o candidato, invocando uma tela de neblina arcana onde se via a imagem de um tiranossauro rex, decapitando um enorme diplodoco a dentadas. Jatos de sangue, altos como pinheiros, se erguiam das vísceras do herbívoro abatido, para deleite do soberano e de sua corte. ─ Mas algo mudou─ Prosseguiu o candidato.

A imagem mostrava bandos de carnívoros bípedes, caçando em grupo, invadindo o território do T-Rex e, até, desafiando-o. No oceano, um gigantesco liupleuorodonte, com dentes maiores do que o marfim das presas de um elefante africano adulto, reinava supremo sobre todas as formas de vida marinha. Mas uma tempestade mais forte ou uma infestação por parasitas eram o bastante para lançá-lo à praia, onde, imóvel, agonizava enquanto servia de alimento pra pequenos carniceiros.

─ Sua abordagem de caçadores e presas é interessante. Mas se torna um tanto aborrecida após algumas centenas de milhões de anos. Estou correto?

─Sim─ Admitiu o soberano.

─Falta aos duelos entre os grandes carnívoros ou à morte das bestas herbívoras um componente essencial para vosso prazer…

─E qual seria? ─Perguntou o soberano de todo o mal.

─Consciência─ Respondeu o candidato─ O conhecimento do bem e do mal, a certeza da própria mortalidade, a percepção do horror do fim e da agonia da própria dor, meu soberano.

O senhor supremo de toda a perversidade quase urrou de contentamento. Mas não o fez, pois isso faria com que ele parecesse um amador.

─Interessante. Prossiga.

─Então, isso nos leva a um dilema evolutivo. Os cérebros desses gigantes são pequenos demais, desenvolvidos unicamente para funções primais. Não há espaço para muito mais do que comer, beber, copular e lutar. Mesmo sob horrendas torturas físicas, eles são incapazes de sucumbir ao desespero e à loucura.

─Sim─ Disse o soberano, quase chorando de frustração.

─E não há nada errado nisso. Em essência eles são perfeitos! Dominam as outras formas de vida desse mundo pelo menos há 145 milhões de voltas em torno do sol. Mas, se todas as condições ambientais permanecerem estáveis, poucas mudanças surgirão em seu desenho básico nos próximos milhões de anos.

─E o que você tem em mente? ─Indagou O Poderoso, definitivamente fisgado pelo discurso do candidato.

─Uma severa mudança ecológica. Algo brutal, caótico e grandioso. Uma extinção em massa!

─Já experimentei extinções em massa antes─ Respondeu o poderoso, um tanto decepcionado pela proposta do candidato, que agora começava a entrar numa contagem regressiva para ser exterminado.

─Ah, Poderoso! Mas antes vossa malignidade dispunha de material bem menos sofisticado do que o que tem em mãos hoje.

─Como assim? ─Indagou o soberano das trevas, curioso.

─Com todo respeito, altíssimo, moluscos marinhos e peixes ósseos não se comparam as bestas que habitam as florestas desse planeta.

O soberano se encheu de orgulho.

─Proponho a extinção total das grandes feras com escamas.

─Você enlouqueceu?! ─Urrou o mestre da destruição.

A corte esperou pelo pior. Mas o pior não veio.

─Não, vossa iniquidade. Sei exatamente onde pretendo chegar.

─E onde isso nos levaria?

─ À criação de toda uma nova ordem de animais de sangue quente, ó altíssimo. A matéria prima já está disponível nas florestas desse mundo.

─E o que eu faria com mais uma ordem desses animais? Eles são umas coisinhas ridículas que vivem em tocas e servem apenas de alimento para feras que servem de alimento para feras maiores e assim por diante─ Respondeu o Poderoso, mal-humorado. O tempo do candidato estava muito próximo do fim .

─Uma ordem capaz de sentir dor, medo e desespero e, melhor que isso, capaz da consciência do próprio fim… ─Disse o candidato, com um tom sedutor. O Poderoso cancelou a contagem regressiva que traria a morte ao palestrante.

─Prossiga─ Disse o Poderoso, sentindo o prazer que antecedia a caçada.

─Observe, ó grande mestre de toda a pestilência. Essas criaturas são mesmo ridículas como vossa malignidade afirma. Mas guardam um potencial para mudanças. Elas podem ser forçadas a evoluir, a se diversificar, ganhando cérebros cada vez maiores e mais sofisticados. Mas isso só poderá ocorrer num mundo sem as feras gigantes.

O poderoso pensou no T-Rex e sua fome monstruosa. Pensou na beleza da dança mortal dos velociraptores que evisceravam presas maiores do que eles próprios, apenas com golpes sutis de suas garras afiadas como navalhas. Aquilo era poesia. Mas já não mais satisfaziam seus sádicos apetites. A corte das trevas a tudo observava, incrédula. Aquele candidato tinha enfeitiçado o grande senhor de tudo que é pérfido e corrupto. Fosse quem fosse, merecia a chance que estava tendo.

─Minha proposta de extermínio das feras gigantes é simples. Atrairemos um corpo celeste razoavelmente grande. Não grande demais para extinguir toda a vida deste mundo. Apenas grande o bastante para lançar incontáveis volumes de pó na alta atmosfera desse planeta. Durante alguns meses, talvez anos, sua malignidade terá um grande espetáculo de encerramento. As grandes batalhas entre as feras serão ainda mais grandiosas, pois serão as últimas. Depois, um novo espetáculo se iniciará…

─E como você pretende tornar esses seres insignificantes capazes de me entreter? ─Disse O Maligno. Suas asas coriáceas, gigantescas como catedrais, traíam seu júbilo, à medida que ele as agitava. Boa parte da plateia morreu esmagada por elas, sem que ele sequer se desse conta disso.

─A chave está nas mutações que sua Malevolência já emprega. Com um enorme mundo à sua disposição, essas criaturas prosseguirão sua marcha rumo à inteligência e ao conhecimento do bem e do mal. Usaremos os recursos de sempre: mudanças nos campos magnéticos do planeta deixarão com que mais raios cósmicos cheguem à superfície, induzindo uma frequência maior de eventos mutacionais. Claro que boa parte desses mutantes não sobreviverá…

─E então…?

─Então, de tempos em tempos, tornaremos os habitats cada vez mais restritos, forçando as novas variedades ao limite da extinção…

O Maligno se deliciava com a possibilidade de chicotear aqueles seres com secas, inundações, fome, eras glaciais, epidemias e flagelos que ninguém além dele poderia conceber. Aquele candidato estava recuperando tempo. O cronômetro de extermínio começava a andar para trás.
O candidato estava eufórico. Já tinha sobrevivido mais tempo do que qualquer outro em toda a história daquele mundo. Naquela noite suas entranhas não seriam atiradas aos pés dos Soberano da escuridão. Seu poderoso intelecto venceria.

─E então, Meu Senhor, começará uma era de diversificação de nichos. Os descendentes dessas criaturas terão as mais variadas formas, os mais diferentes tamanhos. Ocuparão a terra, os mares, talvez até os ares. Alguns deles serão quase tão grandes quanto as feras gigantes. Outros serão minúsculos…

─Sim…Prossiga!

─E então, um deles, um bípede de sangue quente, descerá das árvores e continuará evoluindo, ficando cada vez mais inteligente. E um dia, seus descendentes terão consciência. Experimentarão o horror e o sofrimento imposto por vossa Pestilência, sem falar naquele infligido por si mesmos…

─excelente!

─Mas meu senhor, o plano não termina aí! Eles construirão cidades, erguerão templos e criarão deuses para os quais rezar, deuses que os livrem das dores da existência em meio a um mundo de caos e agonia…

─Maravilhoso! Maravilhoso! ─aplaudia o Poderoso. Suas palmas fizeram desabar quilômetros de rocha, soterrando milhões de seus súditos na cidade maldita.

─E então…em sua hora mais sombria, esses seres se voltarão para Vossa malignidade a procura de poder. Eles o cultuarão, eles o amarão como nunca amaram a seus deuses…

─Sim! Sim!

─E então, Ó poderoso, quando eles descobrirem que não têm salvação, eles serão todos seus para torturá-los até que as estrelas caiam do firmamento…

─Maravilhoso! ─Exclamou o Poderoso, aos prantos. Suas lágrimas de júbilo afogaram metade da corte─ Bravo, bravíssimo! ─Disse o senhor de todos os males.

E então, sem mais nem menos, O Poderoso esmagou o candidato com uma pisada que fez tremer todo o continente.

O arauto apenas o olhou, sem entender.

─Esse sujeito era bom. Muito bom mesmo. Se eu o ajudasse, dentro de poucas eras, ele poderia acabar ficando com o meu emprego. Siga as especificações dele. Arrase a superfície desse planeta, como ele sugeriu. Dormirei por algumas eras. Quando os tais bípedes inteligentes de sangue quente estiverem prontos, você deve me acordar. Até lá, deixe-me em paz. Do contrário, você e todos na cidade maldita morrerão lenta e dolorosamente. Fui claro?

─Sim, Ó poderoso Cthulhu─ Respondeu o arauto, como se sua vida dependesse disso. E dependia.

─Ótimo─ Disse aquele cujos poderes haviam sido gerados na escuridão dos abismos entre as estrelas. Parte de seus súditos sobreviventes respirou aliviada por estar viva. O resto tomou fôlego para a longa jornada de trabalho que lhes ocuparia pelos próximos 65 milhões de anos.

Naquele ano, antes da história, os Shoggoths tiveram o maior banquete de suas vidas.

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