Minha peregrinação à Meca da nerdice (Tudo bem, menos, menos. Jerusalem da nerdice)- Parte I.

Uma das obrigações mais importantes do muçulmano é visitar Meca, a cidade sagrada, ao menos uma vez na vida, em uma peregrinação. Algo parecido acontece com os nerds e geeks. Quase todos sonham, em algum momento, visitar a San Diego Comic Con. Mas não é tarefa simples. Além das despesas e obstáculos como visto para os States, há ainda a hercúlea tarefa de conseguir comprar os ingressos online. Tão difícil, que já foi retratada até em “The Big Bang Theory”, num episódio em que Sheldon e sua turma ficam dando refresh direto, no site do evento, na esperança de conseguir os preciosos ingressos. Pois os nerds brasileiros já podem comemorar. Não, não ficou mais fácil ir até San Diego. Mas, e se um pedacinho de San Diego viesse até a Terra Brasilis (essa não é uma referência ao Mussum)? Pois essa foi a proposta da Comic[GS1] Con Experience, organizada pela equipe do Site Omelete e pela Chiaroscuro Studios. Entre os dias 4 e 7 de Dezembro eles realizaram em São Paulo a maior convenção de quadrinhos e cultura pop da América Latina.
Por motivos profissionais, nos dois primeiros dias, pude assistir apenas aos painéis e outras atrações realizados após as 17:00. Mas foi uma experiência e tanto. Dois amigos meus participaram de todo o evento, incluindo as filas quilométricas da manhã de abertura. Pelo que vi no sábado e no domingo (quando as filas eram ainda maiores), o comando certo para abrir os portões deveria ser: “Release The Kraken!”, ou algo parecido. Mas, apesar de toda a euforia dos participantes, não houve incidentes. Em termos sensoriais, é uma experiência chocante. Você fica plantado numa fila quilométrica que se afasta quase 1500 metros do centro de exposições imigrantes e subitamente, está lá dentro. Sério. É como passar através do Stargate pela primeira vez: dá tontura, vertigem e seu estômago parece que sairá pelo ouvido (ou pode ser o resultado do café da manhã consumido apressadamente, para chegar cedo ao evento. Sei lá).
Lá dentro, o choque: Você dá de cara com os gigantescos estandes dos estúdios de cinema, das empresas de desenvolvimento de Video Games, das lojas de colecionáveis, quadrinhos, livrarias e com o Artists Alley, a seção do evento destinada a abrigar os estandes dos quadrinistas que estarão autografando e vendendo originais. Entre os convidados estrangeiros, tivemos a lenda dos quadrinhos da Disney, Don Rosa, Klaus Janson parceiro de Frank Miller em “O cavaleiro das trevas” (a primeira e única que vale), o roteirista Scott Snyder, entre os mais famosos. O Brasil foi muito bem representado por nomes como Daniel HDR, Rafael Grampá, Fabio Moon, Danilo Beyruth, os irmãos Vitor e Lu Cafaggi, e muitos outros.
É recomendável que você, que pretende visitar o evento (que se repetirá ano que vem, entre 3e 6 de dezembro), estude a programação cuidadosamente antes de entrar. Faça um reconhecimento prévio de quem, quando, onde e como você encontrará o que procura. E seja paciente. Dizem que a morte e os impostos são as únicas constantes do universo. Bom, não só eles. As filas também. Meu compadre, Lucas Jones, veterano da New York Comic Com e de outras convenções americanas, passou quatro horas na fila por uma arte original do Tio Patinhas pelas mãos do mestre Don Rosa. Se você ama a arte dos grandes mestres e está disposto a esperar e desembolsar valores que vão de R$40,00 a R$150,00 (valores podem oscilar conforme o dia e outros fatores), embarque nessa sem medo. Se você quer ver painéis com conteúdo exclusivo, também terá que enfrentar filas. Assisti os painéis da Warner, Fox, Metro, Paramount, Disney e Marvel e valeu esperar por todos eles. Entre as surpresas, mensagens gravadas especialmente para o público do evento, por gente como Arnold Schwarzenegger (dizendo como adora o Brasil. A gente sabe disso, muito antes dele conhecer a Maria Shriver. Procure no youtube por Schwarzenegger Brazil, mas tire as crianças da sala…) e Benedict Cumberbatch (que ainda fez piadinha com o resultado da copa do Mundo 2014).
Também assisti ao teaser de “Vingadores 3: guerras infinitas”, que encerra a trilogia de quatro filmes (?) e será lançado em duas partes, no melhor estilo Harry Potter, bem como o espetacular episódio de estréia de Marco Polo: Impérios Colidem, da Netflix, que já está sendo chamado de “O Game of Thrones da Netflix”, além de outros, como o histórico crossover entre o Omelete e o Jovem nerd, comentando o teaser trailer de Star Wars, episódio VII: O despertar da força.
Há várias opções para curtir esse evento. Você pode se programar de antemão. Pode circular aleatoriamente sem pressa e ver no que dá. Ou pode esquadrinhar o lugar sistematicamente de guia em punho. Eu fiz um mix desses três métodos. E me diverti bastante. Uma das primeiras constatações que tive foi o imenso abismo entre as gerações de nerds presentes no evento. Na fila, encontrei gente que nunca tinha ouvido falar de Jeannie é um Gênio. Pois é. Povo que nunca viu as reprises da rede TV nem do Nick at night…A coisa fica pior quando, durante o bate papo sobre o próximo longa de Star Wars, Azagal, fiel escudeiro do Jovem Nerd dispara essa: “O que é que importa se sabre de luz corta ou não corta aço mandaloriano? Isso é papo de gente velha, coisa de Trekkers.” Caramba! Tenha respeito pela história, cara! Mais alguns anos e você será um tiozinho, sendo zoado por uma gurizada sub-20 que curte os novíssimos 104 (52 + 52) e dá risada desses velhotes como Allan Moore ou Neil Gaiman. Sério, povo. Será que teremos que fazer o baile da saudade nerd? Espero sinceramente que não. Mas isso nos leva à nossa primeira parada mais “detalhada” no evento: um papo com Joe Madalena, o cabeça da Profiles in History, empresa que realiza leilões com itens de cinema e tv, tais como figurinos, veículos, objetos cenográficos e muito mais. Seus leilões e as curiosidades por trás dos objetos vendidos podem ser acompanhados no programa Hollywood Treasure, exibido no Brasil pelo canal pago SyFy. Para a Comic Con Experience, além de figurinos ele trouxe objetos cenográficos como o primeiro escudo de Steve Rogers em “Capitão América: O primeiro vingador”, o Martelo original de “Thor” , a matriz de liderança dos autobots em “Transformers” e o raio congelante de Mr. Freeze em “Batman & Robin”.

Eu, com Joe Madalena, da Profiles in History

Eu, com Joe Madalena, da Profiles in History

3 Sagas: Em primeiro lugar, muito obrigado pelo seu tempo (ele mal acabou de almoçar. Já passa das 17:00 e o estande ainda está sendo montado).

Joe Madalena: Não há de quê.

3 Sagas: Sou um fã de seu programa e também um grande fã dos filmes originais de Planeta dos Macacos. Houve um episódio em que a Profiles in History estava leiloando o espólio de John Chmabers, o maquiador responsável pela maquiagem dos macacos no filme e ganhador de um Oscar especial por esse trabalho. Pois bem. Fiquei deprimido ao assisti-lo. Ali, diante daquela audiência, estavam os apliques faciais da maquiagem de Kim Hunter, que fez a lendária chimpanzé Dra. Zira, e ninguém pareceu interessado em comprar aquelas peças. Sem mencionar todo o kit desenvolvido por Chambers para a maquiagem dos outros macacos. A que você atribui isso?

Joe Madalena: Bem, comparado a outros itens, o espólio de John Chambers foi vendido a um preço muito bom. Colecionar memorabilia de cinema ainda é um hobby muito recente. A geração mais jovem cresceu assistindo filmes em streaming, como os do Netflix. É um público completamente diferente. Eles nunca viram o Planeta dos Macacos original. Eles não sabem quem foi Charlton Heston (Taylor) ou Linda Harrison (Nova). Para mim, bem, eu cresci vendo esses filmes então, oh, meu Deus, foi uma tremenda emoção leiloar o espólio de Chambers. Mas quando você assiste o filme de Ben Affleck Argo e descobre que John Chambers não era apenas um maquiador de efeitos especiais em Hollywood, mas também trabalhou para a CIA, você aprende sobre isso. Então eu acredito que algumas pessoas mais jovens poderiam se interessar por esses itens. Mas eles querem, de preferência, colecionar itens sobre os filmes com os quais cresceram. Eles querem o novo Star Wars, não o antigo. Eles querem o novo Star Trek. Eles não querem ver o Capitão Kirk clássico. Não querem nem mesmo Picard. Eles querem a mais recente encarnação de suas séries e filmes preferidos. Eu tenho 53, sou um babyboomer (da geração do pós guerra, nascidos entre 1946 e 1964). Coleciono quadrinhos dos anos 60. Meus filhos sabem que foi nesses quadrinhos que personagens como Capitão América e Thor surgiram. Mas eles preferem ver os filmes. É diferente.

3 Sagas: Eu me dei conta de um fato curioso. Quando Goonies foi lançado, era para ser apenas uma produção pequena e despretensiosa. Mas tornou-se um clássico com o passar dos anos. Entretanto, o navio pirata de Willy Caolho, uma das coisas mais legais do filme, foi completamente desmontado e jogado fora. O navio seria um tremendo item para leilão, mas ninguém poderia prever que o filme se tornaria esse ícone dos anos 80…

Joe Madalena: É verdade.

3 Sagas: Então eu pergunto, você tem algum tipo de protocolo para uma situação dessas, algo como “olheiros” nos estúdios, prontos para adquirir peças de produção imediatamente após as filmagens, para leilões posteriores?

Joe Madalena: Agora nós trabalhamos com muitos estúdios. Fizemos leilões para itens da Marvel, como os de Capitão América: O primeiro vingador. Para a ABC fizemos leilões de itens de todas as seis temporadas de LOST. Também fizemos recentemente leilões de “Os mercenários”. Então, tentamos obter esses itens com os estúdios imediatamente após as filmagens. Hoje em dia os estúdios guardam essas coisas. Eles perceberam o quanto são valiosas. Nos velhos tempos, tudo era jogado fora. Se algum membro da produção os levasse para casa, eles estariam perdidos. Os estúdios não podiam pagar pelo armazenamento desses itens. Era mais barato jogá-los fora. Veja o caso das séries originais de TV, Jornada nas Estrelas e Missão Impossível. Elas eram filmadas ao mesmo tempo. Os cenários de ambas foram destruídos*. Essa era a natureza da indústria.

3 Sagas: Qual foi o item de produção mais difícil de obter para a Profiles in History?

Joe Madalena: Sem dúvida foram os sapatos de rubi usados por Juddy Garland** em O Mágico de Oz. Há apenas alguns pares deles em todo o mundo. Um está no Museu Smithsonian, em Washington. Um foi roubado do Museu Juddy Garland e se perdeu para sempre. Há um outro par que foi comprado por uma garota chamada Roberta Bowman, que acreditamos ser um modelo usado pela dublê de Juddy Garland e um último, localizado por Phillip Samuels que é aquele que Juddy realemente usou na cena em que ela junta os calcanhares para voltar ao Kansas. Eu os procurei durante muitos anos e tive a sorte de vende-los três anos atrás. Leonardo de Cáprio os adquiriu e os doou à Motion Picture Academy, para que fossem preservados para sempre. Em minha opinião, esse foi o item mais difícil que já conseguimos no programa.

3 Sagas: Muito obrigado.

Joe Madalena: Não há de quê.

Certa vez li uma HQ da Marvel em que John Byrne num rasgo de metalinguagem, entra ele mesmo na história (Talvez fosse o julgamento de Galactus, não me lembro). Em certo momento, Byrne é aconselhado por Odin em pessoa a anotar rapidamente tudo o que viu e ouviu, para contar aos leitores, pois sua memória, em breve, o trairá. Tirando o lado cósmico da coisa, é mais o menos como me sinto, especialmente, considerando o que noites de pouquíssimo sono em um hotel “modesto” (isso foi um eufemismo. Mas não fui roubado e, até onde pude perceber, não havia percevejos no quarto) em Jabaquara e semanas à base de Junk food podem fazer. Por enquanto é só. Em breve estarei de volta com mais curiosidades sobre a Comic Con Experience. Fui!

*Reza a lenda que William Shatner teria, digamos, “levado emprestado por tempo indeterminado” a cadeira do capitão, da ponte da Enterprise, e que a mesma se encontraria no porão de sua casa, no sul da Califórnia. Essa história foi contada pela atriz Angie Dickinson (Police Woman, para os íntimos). Não me perguntem o que ela foi fazer lá…

** Uma réplica do lendário par de sapatos aparece no Smithsonian em Uma noite no Museu 2, e estava exposta no estande da Profiles in History.

O Elmo da armadura de Drácula (Gary Oldman) em "Drácula de Bram Stoker", de Francis Ford Copola.

O Elmo da armadura de Drácula (Gary Oldman) em “Drácula de Bram Stoker”, de Francis Ford Copola.

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