O Nascimento de uma Nação

resenhasPor Gilson Cunha

“Cuidado com a fera homem, pois ele é o peão do demônio. Somente ele, entre todos os primatas de Deus que mata por esporte, prazer ou cobiça.

Ele matará seu irmão para possuir sua terra.
Não o deixe procriar em grande número.
Ele irá transformar a sua casa e a de vocês num deserto.
Combate tudo que está à sua volta, até a si mesmo.
Mande-o de volta à seu covil na selva,
Pois Ele é o arauto da morte.”

– Escritos do grande Legislador 29ª escritura, versículo 6, como lidos pelo chimpanzé Cornélius (Roddy McDowall) em Planeta dos Macacos (1968)

 pmcAlguns anos atrás, Bryan Singer foi crucificado por parte da crítica por causa de seu Superman Returns. Acusaram o cineasta de X-Men e Os Suspeitos de fazer um filme excessivamente reverente ao original, de ser pouco ousado, pouco autoral, blá, blá, blá, que podia ter enterrado de vez a franquia do homem de aço no cinema, blá, blá, blá. Exagero. Inovação por inovação, o “Espetacular” Homem Aranha 2 inova bastante (na trilha sonora horrenda, no roteiro ridículo e em mil outras coisas) e é uma grandessíssima porcaria de filme. Mesmo assim, foi o que bastou para a molecada sub-20 execrar Singer e babar para qualquer um que a mídia chame pelo “mantra” de “visionário”. Até pouco tempo, o deus desse povo se chamava Zack Snyder. Agora, uma dissidência já cogita eleger JJ Abram$, aquele que transformou os Klingons em clones da Vera Verão, como seu novo campeão.

Mas o que é que tudo isso tem a ver com Planeta dos Macacos: O Confronto, que acaba de estrear nos cinemas brasileiros? Mais do que você imagina. A sequência do sucesso Planeta dos Macacos: A Origem, de 2011, é um fabuloso espetáculo e ainda consegue agradar os fãs mais xiitas da franquia original, como este que vos escreve (Leia neste blog a crônica “O ano em que fui um orangotango”). E o faz bebendo, sem medo, dos filmes da franquia-mãe, notadamente A conquista do Planeta dos Macacos e Batalha no Planeta dos Macacos, respectivamente o quarto e o quinto filmes da lendária cine série símia. Se você não sabe nada sobre os filmes antigos, assista  essa estreia sem medo. Verá um grande espetáculo. O roteiro flui redondo, como uma tempestade que começa com uma brisa suave, e termina devastador, como um furacão.

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Quinze anos se passaram desde que o contágio pelo vírus ALZ-113 dizimou a maior parte da humanidade. Os macacos usados como cobaias para a cura do mal de Alzheimer no filme anterior, além de outros, libertados durante a revolta símia, agora vivem nas florestas do Parque Muir, próximo de San Francisco. São liderados por César, o chimpanzé com intelecto superior, gerado por uma fêmea que foi uma das primeiras cobaias a receber a terapia gênica, que acabou tornando-os superinteligentes. A vida pacífica da nação símia começa a ruir quando dois jovens chimpanzés se deparam com um pequeno grupo de humanos, que entra em seu território sem ter ideia de que estão invadindo o novo lar dos macacos. O primeiro contato é desastroso e só não vira uma carnificina logo de cara, devido à boa vontade de César (Andy Serkis, mais uma vez, fabuloso) e de Malcom (Jason Clarke, ótimo), o líder do pequeno grupo, cuja missão é vital para os sobreviventes humanos da colônia de San Francisco, liderada pelo amargo Dreyfus (Gary Oldman). Apesar de conseguirem compreender um ao outro e desejarem a paz, Malcom e César precisam lidar com facções belicosas tanto entre os humanos quanto entre os macacos.

Planeta_dos_Macacos_5O filme investe na construção de atmosfera. A tragédia de uma guerra anunciada surge aos poucos, de modo insinuante. A fotografia usa e abusa do clima sombrio e chuvoso da cidade de Mark Twain. A trilha sonora do hábil Michael Giacchino evoca momentos de pesadelo, com o uso de corais que, à certa altura, lembram o Requiem, de György Ligeti, usado em 2001: Uma Odisseia no Espaço e, mais recentemente, em Godzilla. Mas também cria momentos de beleza e esperança, especialmente através do uso sutil de piano e cordas, ferramentas que domina como poucos. O visual da vila símia é simples, de uma beleza sombria, e arrebatador. O CGI e captura de movimentos empregado na criação dos símios já é um seríssimo candidato ao Oscar.

Mas é nas homenagens aos filmes originais que o filme têm suas raízes firmemente plantadas. O que no filme anterior era apenas um modo de agradar aos antigos fãs, neste se torna parte orgânica da trama. A escola onde o orangotango Maurice ensina os jovens primatas veio diretamente de Batalha no Planeta dos Macacos. Até mesmo Aldo, o vilão símio de “Batalha”, está no filme, sob outra forma. A dramática cena final lembra muito a também cena final de “A Conquista do Planeta dos Macacos”  E ainda há vários outros easter eggs para o deleite dos fãs. Mas as semelhanças com a série clássica param por aí. Trata-se de um universo que, na franquia original, corresponde à pré-história dos símios, daí o título em inglês, infelizmente não respeitado, de A Aurora do Planeta dos Macacos.
Os humanos belicosos liderados por Dreyfus lembram os mutantes psicóticos, mutilados e enlouquecidos pela radiação da bomba atômica, do quinto filme da série, Batalha no Planeta dos Macacos, ainda que sem as cicatrizes (físicas) do fim da civilização. Mas o que cega tanto humanos quanto macacos é o ódio e a ignorância. Ambos, em sua maioria, são levados ao desastre por obra de uns poucos indivíduos insanos, que preferem a morte de seus próprios povos à uma solução pacífica. Qualquer semelhança com os noticiários internacionais não é mera coincidência.

Planeta dos Macacos: O Confronto, consegue ser um libelo pacifista sem ser chato e panfletário. Há cenas de ação de tirar o fôlego, bem como fartas doses de suspense, drama e aventura, mas nada é gratuito. Tudo é muito bem conduzido por Matt Reeves, que aceitou o desafio de entregar o filme num prazo considerado curto demais por Rupert Wyatt, diretor do filme anterior. Os macacos desse filme já possuem uma sociedade própria, acumularam cultura e começaram a fazer história. O final aponta para possibilidades nunca antes exploradas na franquia. Resta torcer para que a Fox mantenha a mesma equipe para os próximos filmes. Caso o faça, o futuro da franquia na telona promete ser extraordinário.

Ficha Básica: Planeta dos Macacos: O Confronto;EUA, 2014-130 min. Ficção Científica / Ação.Direção: Matt Reeves.

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