O ano em que fui um orangotango

coluna - aventuras no nerd verso finalPor Gilson Cunha

       A odisseia de um nerd  acadêmico high level que se tornou um macaco para esconder seu amor pelo nerdismo dos preconceituosos.

Um pouco depois de eu saber que era trekker e um pouco antes de também me apaixonar por Guerra nas Estrelas, eu era um caso agudo de macacomania. A estreia de O Planeta dos Macacos na TV brasileira, em 1975, foi um divisor de águas em minha nascente nerdice. Cresci vendo a franquia original, onde Roddy McDowall interpretou pai e filho, os chimpanzés Cornélius e César, em quatro dos cinco filmes da série. Primeiro em telinhas pequenas e em preto e branco. Depois, em TVs a cores e, finalmente, em telas de plasma e led. Então, nada mais natural para mim do que adotar como pseudônimo o nome do maior vilão símio da franquia, o Dr. Zaius, o famigerado “ministro da ciência e defensor da fé”, um orangotango. Não que eu seja um vilão. Longe de mim! Mas convenhamos que usar o pseudônimo de Cornélius no Brasil é piada pronta…

zaius_pie  Mas o que levaria um sujeito responsável, pai de família, sem antecedentes criminais, a usar pseudônimo? Ei! Você nunca leu Watchmen? “A honra é como o falcão: as vezes precisa de um capuz” escrevem os articulistas da News Frontiersman, revista favorita de Rorschach. Pois bem. Eu estava desempregado, numa área onde ter  hobbies não era, até então, algo muito bem visto. Então pensei, pelo sim e pelo não, EU ME TORNAREI UM ORANGOTANGO. Tá, tudo bem. Não foi com a mesma entonação dramática com que Bruce Wayne disse “Eu me tornarei um morcego”. Mas passou perto. Montei um blog, no momento em animação suspensa até que eu ganhe na mega sena ou venda um roteiro para o Ridley Scott filmar, e comecei a escrever sobre nerdice, sem freios, sem travas de espécie alguma, livre, leve e solto. E o melhor, sem me preocupar com o que diriam a respeito dessa “atividade dispersante”. O fato é que adorei fazer isso, entre outras coisas, como participar de desafios literários online.

De certo modo, era como poder voltar no tempo e tentar recuperar algo que havia perdido. Publiquei dois contos de ficção científica na Antologia Universitária 1987, da Editora da UFRGS, duas historinhas de humor espírito de porco com final pretensioso, algo como um Rod Serling do subúrbio, que só foram aceitas pelo editor, o prestigiado Sérgius Gonzaga, para mostrar que aquela edição era pluralista e inclusiva. Ou assim penso eu. E deu certo. Mas a intensa vida acadêmica e o medo de virar outro escritor faminto me fizeram abandonar esse projeto e encarar o mundo da ciência (que é outra forma de viver modestamente, mas com mais chances de pagar as contas no fim do mês). Então, seis anos atrás, ganhei um “ano sabático” que durou tempo demais.

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NE: “Para manter minha sanidade, comecei a ir a convenções de quadrinhos”, será que ele foi na SDCC?

Para manter minha sanidade, comecei a ir a convenções de quadrinhos, feiras de colecionáveis, festivais de cinema údigrudi e a escrever a respeito. Fui convidado a escrever uma coluna em um jornal. Só que, mais ou menos no mesmo período, fui também convidado a retornar à vida acadêmica. Uma vez que escrevo para um jornal e que isso é de conhecimento público, incluindo meus pares na universidade, resolvi relaxar e me despedir de meu alterego primata.

Sim, voltei a fazer ciência, o que significa que periodicidade não será uma de minhas virtudes, pois estarei ocupado a maior parte do tempo sondando os mistérios do universo (ou, ao menos, de alguns genes e proteínas). Isso não quer dizer, em absoluto, que não possa dar uns pitacos neste site sobre curiosidades arqueológicas, como séries dos primórdios da TV, trilhas sonoras (outra de minhas paixões) ou filmes sci-fi tão obscuros que ninguém abaixo dos 45 anos lembra de tê-los visto. A maioria não é convencional. Mas confessem, prezados leitores, se vocês não forem casos terminais de hipsterzice, é pouco provável que vocês entrem numa comic book shop, de livre e espontânea vontade, para comprar uma HQ tcheca minimalista sobre um escritor iraniano que busca desesperadamente um tema para escrever (eu mencionei que adoro metalinguagem?).

O povo gosta mesmo é de coisas curiosas, para não dizer bizarras. Do contrário, Swift não teria feito sucesso com “As viagens de Guliver”, nem Van Gogh com aqueles quadros lisérgicos e nem George Lucas com “Howard, O Super-Herói”. Bom… Acho melhor que vocês esqueçam esse último exemplo.

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NE.: Leitores mais novos que nunca assistiram a “Howard, O Super-Herói”, é melhor que esqueçam mesmo que o Gilson mencionou ele aqui. Ou você terá outra visão sobre patos.

O fato é que, sempre que possível, estarei aqui com uma resenha, um comentário ou um conto ou noveleta. Afinal, sem querer ser sacana, é um bom modo de encontrar leitores beta, para saber o que pensa o público. Meu lado ficcionista despertou de um longo sono e quer ação. Mas não abro mão de minha integridade artística! Não escreverei sobre magos roqueiros em peregrinações espirituais, adolescentes indecisas ou vampiros purpurinados. Um homem tem que ter princípios, como dizia Groucho Marx. Além disso, convenhamos, escrever esse tipo de coisas é trabalho para profissionais.

Nos vemos por aí. E, até lá, lembrem-se: A União faz…Açúcar e café!

Perdoem-me. Não resisti. Tentarei ser mais sério nos próximos artigos, talvez até erudito e… Nah! Já passei dessa fase. Nem eu aguentaria ler isso. A Darwin o que é de Darwin, a Stan Lee o que é de Stan Lee. Abraços e até breve. Fui!

 

 

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Um comentário sobre “O ano em que fui um orangotango

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