Fashion Beast: A Fera da Moda [resenha]

resenhas Por Vagner Abreu

“Someone else inside me

Someone could get skinned, how?”

-Beauty and the Beast, David Bowie

Alan Moore não deve gostar da Iron Maiden.

FASHION BEAST.inddAlto lá, caro leitor, não estou escrevendo nenhum tipo esquisito de propaganda contra a banda preferida de alguém! Atente-se a frase. Alan Moore não deve gostar “da” Iron Maiden, dando mais acentuação ao DA, agora. Se você já sacou que não estamos falando de Heavy Metal e sim da Donzela de Ferro, apelido pelo qual os ingleses chamavam a sua primeira-ministra Margareth Thatcher que governou a Terra da Rainha com mãos de ferro entre os anos de 1979 a 1990.

A frente do governo, Thatcher estava disposta a ir até as últimas consequências para reverter o declínio econômico em que a Inglaterra estava inserida. Seu governo facilitou o acesso de imigrantes ao mercado de trabalho inglês – aumentando o desemprego de ingleses –, além de incentivar uma campanha armamentista que culminou com a vitória na Guerra das Malvinas contra os argentinos, em 1983.

Sua base de governo era norteada por um conservadorismo extremo com conceitos como a “moral’ e os “bons costumes” sendo usados como norma para atacar abertamente os homossexuais e ainda defender a criação de campos de concentrações destinados a gays, lésbicas e simpatizantes.

Tanto esse governo conturbado da história inglesa influenciou Moore que suas obras mais famosas como Watchmen e V de Vingança repudiam a recessão sexual e ideológica e as atitudes bélicas. Em Watchmen vemos a desconstrução de ícones tradicionalistas e em V de Vingança o ataque as ideias fascistas de Thatcher é ainda mais evidente.

Não somente o escritor barbudo foi influenciado por esse período como demais autores ingleses dessa época tanto nos quadrinhos, quanto na literatura e na música protestavam contra a política de guerra britânica. É com esse plano de fundo “colocado em voga” que a Panini Comics trouxe às bancas, Fashion Beast: A Fera da Moda. Roteiro escrito pelo “barba” ainda na década de 80 que tinha como base o argumento de ninguém mais que o criador e empresário da banda punk Sex Pistols: Malcom McLaren.

Mas antes de comentar sobre o que se trata, a história da criação dessa obra é ainda mais interessante. Moore conta no prelúdio do álbum sobre um encontro que teve com McLaren para discutirem um roteiro de filme sobre o poder influenciador da moda. Moore afirma estar interessado em escrever para uma mídia: o cinema. E mesmo sem entender de moda topou colaborar. Conhecendo o escritor aposto que ele o fez porque era naquela época. Hoje em dia duvido muito que ele aceitasse escrever sobre moda.

O fato é que o autor de Watchmen escreveu essa graphic novel que se passa em um universo distópico que reflete bastante sobre os anos 80. Mas que se lida hoje será incrivelmente atual. Porém, esses escritos foram engavetados na época por falta de confirmação sobre o filme até que em 2012 a editora Avatar Press verteu a série para quadrinhos com adaptação de Antony Johnston, arte de Facundo Percio e homenagem póstuma a McLaren.

 

A releitura de um conto de fadas

26O cenário da história poderia ser uma Nova Iorque ou Londres da década de 90. Mas em nenhum momento é estipulada uma data ou local para a estória que acontece em uma realidade paralela à beira de um inverno nuclear causado por uma guerra que está longe de ver seu fim. Nessa realidade, as comunidades de pessoas se abrigam em becos e a principal forma de entretenimento é: Admirar as divas da moda.

Todos querem ser a próxima modelo do momento ou vestirem o modelito que irá gerar a nova tendência. A personagem principal é a jovem Doll Seguin, uma “mulher que parece homem vestido de mulher” que consegue um emprego como modelo para o estilista e “ricaço excêntrico de plantão” Jean Paul Celestine. Nesse trampo, a Doll (boneca em inglês) será uma verdadeira marionete nas mãos dos estranhos empregados na Mansão Celestine, mas seu envolvimento com Jonni, um “homem que parece um uma mulher vestida de homem” a fará questionar o mundo em que está inserida.

De acordo com o autor, Fashion Beast é uma releitura de A Bela e a Fera. Assim, como o conto de fadas, as aparências aqui são importantes. Celestine é a besta que tiranamente aprisiona a liberdade da comunidade ao seu entorno através da forma de manipulação mais poderosa: apresentar um novo figurino! Além dos assuntos debatidos lá no começo da resenha sobre o governo de Thatcher serem discutidos sob o viés da moda – é de se estranhar que o Moore tenha escrito algo assim, o que também destaca a parte genial do argumento inicial de McLaren.

d5422c173dc36387b85390fd03fe56d0O desenho de Fecundo Percio é bonito e competente. Ele sabe representar com excelência esse sexismo necessário ao roteiro. Doll realmente parece um homem vestido de mulher e não perde sua feminilidade. E o inverso vale para Jonni. As governantas da mansão Celestine parecem uns macacos. Talvez realçando o aspecto feral das mulheres que criaram a “Fera” desta história.

Fashion Beast: A Fera da Moda é leitura recomendada para quem deseja ver uma nova abordagem sobre um conto de fadas ou já leu obras distópicas como Admirável Mundo Novo, 1984 e viu Laranja Mecânica e procura por uma versão mais rápida de ler e com outra abordagem.

A edição nacional está com capa dura, papel de qualidade e preço justo. Um gol dentro para a Panini que me pegou de surpresa, pois sou fã do Alan Moore e nunca me imaginei lendo algo sobre o mundo fashion. Até que esse barburu pegou a moda, V de Vingança, Margaret Thatcher, punk rock e contos de fadas e elaborou um novo look que irei vestir até me sentir DIVA!

Ficha Básica – Fashion Beast: A Fera da Moda; título original Fashion Beast; escrito por Alan Moore e Malcom McLaren; adaptado por Antony Johnson; arte por Fecundo Percio; editora original Avatar Press; edição nacional pela Panini Comics; lançamento 2014; encadernado completo com as 10 edições; 272 páginas.

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